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A ONTOLOGIA NO MUNDO PÓS VERDADE:Conversas sobre consistência numa sociedade líquida por Homero Reis

A pós-modernidade ou “mundo pós verdade” é um conceito utilizado para descrever um período histórico e cultural que sucede a modernidade promovida pelo positivismo e a 2a onda da Revolução Científica (séc. XIX até meados do séc. XX). É um período caracterizado por uma série de mudanças e transformações nas esferas social, cultural, tecnológica, econômica e política.



A PÓS-MODERNIDADE é marcada pela DESCRENÇA NAS NARRATIVAS que buscavam explicar a realidade, como o marxismo e o positivismo, e pelo surgimento de MÚLTIPLAS PERSPECTIVAS E IDENTIDADES. Também é caracterizada pela fragmentação e pluralidade, em que diferentes discursos e ideias coexistem e se entrelaçam de forma complexa.




Na pós-modernidade o QUESTIONAMENTO DA OBJETIVIDADE E DA NEUTRALIDADE DA RAZÃO É O QUE ORGANIZA O NOVO MODELO MENTAL DAS CONVERSAS, uma vez que a verdade e a realidade são vistas como construções sociais e históricas. Isso implica em uma maior valorização da subjetividade e da experiência pessoal, bem como da diversidade cultural e da diferença.


Na esfera cultural, a pós-modernidade é marcada pelo ecletismo e pela mistura de diferentes estilos e referências, bem como pelo surgimento de novas formas de arte e de expressão, como o grafite, o hip hop, o cinema independente, o rock underground, dentre outros.


Na esfera política, a pós-modernidade é marcada pelo ENFRAQUECIMENTO DOS IDEAIS DE EMANCIPAÇÃO E PROGRESSO, com retrocessos claros nas políticas de tolerância e diversidade. Isso promove a necessidade de uma maior descentralização do poder e em valorização de políticas de identidade e do individualismo caracterizado pela FRAGMENTAÇÃO, PLURALIDADE E VALORIZAÇÃO DA SUBJETIVIDADE E DA DIFERENÇA, em contraste com a modernidade, que valorizava a razão, a objetividade e a universalidade.


Essa noção de sociedade líquida surge no pensamento de Zygmunt Bauman (1925-2017), sociólogo polonês que se destacou por suas reflexões críticas à sociedade contemporânea e suas transformações decorrentes do que se chama de MUNDO PÓS-VERDADE ou mundo líquido. Tal “mundo” é CARACTERIZADO PELA FLUIDEZ, PELA FALTA DE ESTABILIDADE E CONTINUIDADE NOS PROPÓSITOS DE VIDA, SEJAM ELES PESSOAIS OU SOCIAIS, O QUE TORNA AS RELAÇÕES ENTRE AS PESSOAS MAIS VOLÁTEIS E EFÊMERAS.


Para Bauman, a sociedade líquida é o modo como as estruturas sociais que antes forneciam segurança e estabilidade às pessoas, como a família, a religião, escola e o Estado, agora estão enfraquecidas ou em declínio. Isso produz uma SENSAÇÃO DE INCERTEZA E DE FALTA DE DIREÇÃO, agravadas pelo ritmo acelerado das mudanças tecnológicas e econômicas.



Mas qual a causa disso? Bauman nos apresenta algumas hipóteses: O CONSUMISMO E A CULTURA DO DESCARTE, que ele vê como expressões da lógica do capitalismo tardio. A busca incessante pelo consumo e pela satisfação imediata de desejos individuais contribui para a erosão da solidariedade social e para a perpetuação das desigualdades, o que promove a exclusão e a marginalização social. Nosso papel, segundo ele é promover a reflexão e a ação focadas numa agenda de solidariedade e de responsabilidade social como formas de combater esses problemas. Zygmunt Bauman nos desafia a uma reflexão crítica sobre as mudanças sociais e pela busca por uma sociedade mais justa e solidária.


Segundo ele, “o desafio de viver e agir em uma sociedade líquida significa enfrentar um mundo em constante mudança e incerteza a partir de algumas orientações que podem nos ajudar a lidar com essa realidade”. ASSIM, ele nos apresenta essas ORIENTAÇÕES.


Primeiro, BAUMAN NOS CONCLAMA A CULTIVAR A CAPACIDADE DE ADAPTAÇÃO E FLEXIBILIDADE, O QUE ELE CHAMA DE “FLEXIBILIDADE COGNITIVA”. Em uma sociedade líquida, as relações sociais são mais fluidas e efêmeras, o que significa que é necessário estar sempre disposto a mudar e a se adaptar a novas situações, mas sem perder de vista as virtudes universais e a constante reflexão sobre “os valores que nos orientam na vida.


Segundo, BUSCAR FORMAS DE CONEXÃO E SOLIDARIEDADE. Como as relações humanas, em uma sociedade líquida, são mais superficiais e voláteis, a perda de conexão e a baixa solidariedade leva à solidão e ao isolamento; e isso promove o adoecimento do tecido social: solidão, isolamento, depressão, narcisismo autocentrado, egoísmo e indiferença social são alguns exemplos desse adoecimento. Por isso, é importante buscar formas de se conectar com outras pessoas, cultivar relações mais duradouras e significativas E INVESTIR NAS RELAÇÕES COMUNITÁRIAS.


Terceiro, Bauman destaca a IMPORTÂNCIA DE DESENVOLVER UM SENSO DE RESPONSABILIDADE SOCIAL. Em uma sociedade líquida, as instituições tradicionais, como a família, escola, religião e o Estado, estão enfraquecidas, o que torna mais difícil lidar com problemas sociais e com uma agenda inclusiva. Por isso, atitudes de responsabilidade social que promovam atuações em rede, conectividade entre diferentes, pensamento global que resultem em cooperação, colaboração e integração são os desafios da “educação, saúde e do desenvolvimento humanos”.


Por fim, Bauman também destaca a IMPORTÂNCIA DA REFLEXÃO CRÍTICA SOBRE A REALIDADE SOCIAL. Em uma sociedade líquida, é fácil se deixar levar pelo ritmo acelerado das mudanças e das informações, o que pode promover a sensação de desorientação e falta de propósito. Por isso, é importante cultivar a capacidade da reflexão crítica, da análise dos desafios de uma agenda comprometida com o humanismo e da competência para resolução de problemas complexos em grupo.


Mas, o que marca o início desse período e que o promove até hoje, é um tema controverso e não existe um consenso sobre isso. No entanto, é possível apontar algumas transformações históricas e culturais que marcaram o surgimento da pós-modernidade como um período distinto da modernidade e que caracteriza nossa atual forma de nos relacionar.


Uma dessas transformações foi a inefetividade dos modelos de desenvolvimento econômico e social que prevaleceram no pós-guerra. A partir da década de 1970, houve um declínio do Estado de bem estar social e um aumento da desigualdade social e econômica, o que levou a um enfraquecimento das grandes narrativas que buscavam explicar a realidade, como o marxismo, o positivismo e o existencialismo.


Além disso, o surgimento de novas tecnologias de comunicação e informação, como a televisão, a internet e as redes sociais, transformaram a forma como as pessoas se relacionam e se comunicam, possibilitando uma maior fragmentação e pluralidade de discursos e perspectivas, não obstante a globalidade de nossas referencias que deixaram de ser “locais ou tribais” para serem “universais”.


Exatamente por isso, na cultura da pós-modernidade surgem novos movimentos artísticos e culturais, como cinema independente, o grafitismo, o street dance e as “TRIBOS URBANAS” (dentre outras), que questionaram as noções tradicionais de arte, de relacionamentos e de cultura e propuseram novas formas de expressão.


Por outro lado, é também impactante a forma como o pensamento humano se conformou à “realidade” pós-moderna, sustentada pelo “RESSURGIMENTO” DE UMA ONTOLOGIA NÃO METAFÍSICA que pretende dar sentido a essa nova forma pela qual a “HUMANIDADE É E SE MOVE”, uma vez que se admite a existência de várias interpretações e perspectivas “válidas” para o ser.

Em geral, a ontologia é a parte da filosofia que estuda a natureza do ser, enquanto o período pós-moderno é um movimento cultural, filosófico e artístico que emergiu nas décadas de 1950 e 1960, mas que ganha fôlego no final dos anos 1970 para contestar o “modus vivendi” da sociedade de então. Esse encontro colocou em evidência novas noções de verdade, objetividade e progresso, ensejando uma série de debates sobre a natureza da existência e sobre a relação entre a realidade, percepção da realidade e a linguagem. Por exemplo, alguns filósofos ontológicos argumentam que a realidade é independente da linguagem e que existe uma realidade objetiva e universal que pode ser descoberta através da razão e da observação empírica. JÁ OUTROS FILÓSOFOS ONTOLÓGICOS (não metafísicos), argumentam que a realidade é construída socialmente e que a linguagem é fundamental na formação da nossa compreensão dela.


NO PERÍODO PÓS-MODERNO, HÁ UMA CRÍTICA À IDEIA DE UMA REALIDADE OBJETIVA E UNIVERSAL, bem como à ideia de que a verdade pode ser alcançada através da razão e da observação empírica. Em vez disso, os pós-modernos argumentam que a realidade é socialmente construída e que a linguagem é fundamental na formação de nossa compreensão dela, enfatizando a importância das diferenças culturais e históricas na formação de nossa compreensão “das coisas”.


Assim, embora existam pontos de contato entre ontologia e pós-modernismo, também há diferenças significativas em suas abordagens quanto a natureza da existência e nossa forma de agir nela. É importante reconhecer que existem várias interpretações dentro desse campo, e que não há uma relação simples e direta entre ontologia e pós-modernismo.


Mas, COMO VIVER (OU CONVIVER) NUMA “REALIDADE” QUE SE ESTRUTURA DE FORMA LÍQUIDA e que parte do pressuposto de que não existe nada com “densidade” suficiente para permitir nossa ancoragem? A resposta não é simples, mas abre boas oportunidades para reflexões e provocações bem significativas. Vamos a algumas delas:


Primeiro – só é possível viver com consistência num mundo líquido, se você tem clareza sobre seus valores existenciais. Do ponto de vista prático isso significa que você sabe (ou pelo menos deveria saber) manter seu posicionamento na vida sem a “necessidade de agradar a todos”, você sabe dizer não, sabe construir limites legítimos


Segundo – ter consistência num mundo líquido requer uma atitude “contra cultural”; ou seja, ser capaz de questionar de forma reflexiva a cultura líquida para quebrar os auto tabus, entender normas e padrões comportamentais impostos, ampliar os limites auto impostos, sem fazer disso um oráculo ou uma verdade a ser seguida por outros.


Terceiro – ter consistência num mundo líquido requer distinguir inocência de ingenuidade. Não é porque você é “uma pessoa legal” que o mundo vai lhe tratar dessa forma. Isso é ingenuidade e essa relação linear deixou de existir no mundo pós-moderno. Atue a partir da integridade de propósitos.


Quarto – o mundo líquido requer que você seja ético. Em um mundo fluido e incerto, cultivar valores e princípios éticos implica em assumir a responsabilidade por suas ações e em buscar agir de forma justa e compassiva em relação aos outros, como se sua conduta pudesse se transformar em um princípio universal (I.Kant). A ética deve servir como um guia para lhe orientar a tomar decisões e agir de forma responsável em um mundo cada vez mais complexo e incerto, mas também entendendo que você jamais será uma unanimidade.


Quinto – entender-se como autônomo, mas não como “autossuficiente”. Isso significa entender que sozinho você não pode nada. A vida é o resultado de nossas colaborações e cooperações recíprocas. Além disso entenda que sua forma de ver o mundo “É A SUA FORMA DE VER O MUNDO”, ela não é a verdade, não é a melhor forma e não é a única forma. O entendimento desse princípio nos tira das patologias relacionais que afligem o mundo pós-moderno e nos coloca na perspectiva da atuação em rede, em processos conversacionais legítimos nos fazendo abandonar a ideia de “ser guru”, nos afastando dos protagonismos cheios de vaidade, arrogância, prepotência etc.


Sexto – atue no mundo pós-moderno com criatividade e inovação. Não se trata aqui de fazer melhor o que todo mundo faz, mas fazer o que ninguém faz. Por isso você é único. Isso implica em desenvolver a capacidade de pensar fora da caixa, de buscar soluções criativas e de experimentar novas formas de fazer as coisas.


Para finalizar, e não para concluir, o mundo líquido denunciado por Bauman e a natureza das relações entre as pessoas vive hoje um momento crítico que oscila entre a efemeridade de tudo, colaborando para que “TUDO SEJA POSSÍVEL E NADA SEJA VERDADE”, e a possibilidade de tornar a vida mais consistente pela REDESCOBERTA do papel cooperativo e colaborativo de nossas individualidades e das identidades que assumimos no nosso mover na vida.


É nesse contexto que devemos aprender a abrir mão do nosso narcisismo e contemplar todas as formas de ser como possibilidades e não como ameaças, ao tempo em que sejamos suficientemente autênticos para sermos para o mundo uma resposta consistente, mas não obrigatória.


Reflitam em paz! Homero Reis, MCOA Abril/23

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