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A base fundamental do Coaching Ontológico

SOBRE O TEXTO


O primeiro contato que tive com esse texto foi em 2005, quando comecei a pesquisar, estudar e aprender o Coaching Ontológico. Me lembro de baixá-lo do antigo site da empresa de Alan Sieler, imprimi-lo e começar a lê-lo com bastante dificuldade por causa do idioma.


Recentemente, depois de 15 anos, me reencontrei com esse texto arrumando meus antigos documentos. Já mais safo com o idioma, o li novamente e vi o quão o tema ainda é atual e pertinente para os profissionais do coaching e, em especial, aos Coaches Ontológicos.


Concordo drasticamente com Sieler quando ele propõe que para que o Coaching migre de uma indústria, como ainda acontece hoje, para uma profissão bem estruturada, um dos primeiros passos é que nós tenhamos uma sólida e rigorosa base conceitual de suporte.


No artigo Ontology: A Theoritical Basis for Profesional Coaching, Alan nos apresenta de forma bastante organizada e cadenciada as principais bases fundamentais do Coaching Ontológico. A saber: a Ontologia do Observador Humano sintetizada por Fernando Flores; a biologia da cognição de Humberto Maturana; o Giro Linguístico protagonizado por Martin Heidegger, Ludwig Wittgenstein, John Austin e John Searle; e as perspectivas filosóficas das emoções, baseada em Robert Solomon, Martin Heidegger e Friederich Nietzsche.


Essas são algumas das bases conceituais que, associadas à Ontologia da Linguagem, de Rafael Echeverría, conformam o solo fértil para a consolidação do Coaching Ontológico como uma disciplina, um ofício e uma profissão reconhecida e respeitada.


O texto foi traduzido e diagramado o mais próximo do original possível e é destinado aos Coaches Ontológicos brasileiros para o aprendizado dos conceitos e práticas do Coaching Ontológico.


A empresa de Alan Sieler é a Newfield Institute e pode ser encontrada pelo link:


Link para o artigo:


Seguimos conversando,


André Monc | Coach Ontológico | Estilista de Pensamento.

Instagram @andre.monc



A Primeira Conferência Australiana de

Coaching Baseado em Evidência


Universidade de Sydney

Sydney, Austrália

7-8 de Julho de 2003



Ontologia: Uma Base Teórica para o Coaching Profissional



Artigo apresentado por

Alan Sieler




RESUMO


Um novo campo de conhecimento, “Ontologia do Observador Humano”, foi desenvolvida como uma disciplina para o coaching. A disciplina é baseada em desenvolvimentos significantes do século XX na biologia da cognição, filosofia existencial e filosofia da linguagem.


A partir de sua pesquisa na neurofisiologia da visão, o biólogo Humberto Maturana desenvolveu uma teoria dos sistemas vivos, da linguagem e da cognição. O central para esta teoria é a noção do Observador. A realidade de qualquer sistema vivo é uma função da estrutura e da operação de seu sistema nervoso, o que para os humanos inclui especialmente a linguagem, as emoções e a fisiologia. Grandes desenvolvimentos em filosofia, especialmente o trabalho de Martin Heidegger, paralelos com a alegação de Maturana de que a linguagem e as emoções são centrais para como os humanos, como observadores, constituem a realidade.


Estes importantes desenvolvimentos teóricos foram traduzidos em um modelo e metodologia prática de coaching, chamado Coaching Ontológico, cuja essência é que a forma como qualquer pessoa percebe e participa do mundo consiste em uma interação dinâmica entre três domínios da existência humana: linguagem, emoções e corpo. Um coach ontológico é capaz de trabalhar respeitosamente para permitir a um cliente de coaching desenvolver uma estrutura mais construtiva da realidade que lhe permita tomar ações mais eficazes. Um exemplo de Coaching Ontológico em ação é apresentado.

ONTOLOGIA: Uma Base Teórica Para o Coaching Profissional


TEORIA E COACHING PROFISSIONAL


De acordo com uma antiga expressão Chinesa: “Teoria sem prática é tolice; prática sem teoria é perigoso”.


Uma das características chave de uma profissão é que o trabalho dos seus praticantes seja baseado em uma metodologia coerente que se baseie em um corpo de conhecimento estabelecido e aceito.1 Para que o coaching deixe de ser uma indústria para se tornar uma profissão, o treinamento e o credenciamento de coaches devem incluir um componente teórico substantivo, robusto e acessível, que informa claramente o método e a prática de coaching.


A Ontologia provê uma estrutura teórica rigorosa e substantiva para o desenvolvimento de coaches profissionais. Ontologia é o estudo do ser. De acordo com The Oxford Companion to Philosophy, “Ontologia é ... a ciência do ser em geral, abrangendo questões como a natureza da existência e a estrutura da ... realidade.”2 Os principais desenvolvimentos em biologia e filosofia no século XX resultaram na Ontologia fornencendo uma visão profundamente arraigada da vida humana, que é a base de uma abordagem específica de coaching, denominada Coaching Ontológico.


Segundo a psicóloga Suzanne Skiffington, “questões existenciais como identificar propósito e sentido na vida, aliviar o sofrimento e permitir que o indivíduo viva uma vida mais plena e alegre, são centrais para o processo de coaching”.3 De uma perspectiva ontológica, os coaches observam e trabalham com aspectos-chave de como o cliente (coachee) estrutura sua realidade e a natureza da sua existência, ou seja, suas percepções e formas de participação na vida. Isto é feito pela observação dos aspectos-chave do seu ser, ou mais precisamente seu Modo de Ser. Como um profissional habilidoso, um coach ontológico é capaz de:


(i) desenvolver uma compreensão sólida de quais aspectos do Modo de Ser do coachee estão gerando uma realidade inútil, e

(ii) apoiar o coachee para desenvolver uma realidade mais construtiva que levará a mudanças positivas em seu mundo.


UMA NOVA DISCIPLINA PARA O COACHING


A ontologia remonta aos filósofos da Grécia Antiga. No entanto, foram os principais desenvolvimentos no Século XX na filosofia e na biologia, bem como na antropologia, sociologia e física quântica, que forneceram a base acadêmica rigorosa para o desenvolvimento da Ontologia como uma disciplina para o coaching profissional.


Desenvolvimentos significativos na biologia da cognição, filosofia existencial e filosofia da linguagem geraram uma nova compreensão dos seres humanos e da interação humana, incluindo a natureza da percepção, comunicação e comportamento humanos. Esses desenvolvimentos foram integrados para formar um novo campo de conhecimento denominado “Ontologia do Observador Humano”, como uma disciplina para o coaching profissional.


Fernando Flores é uma figura central na formação da disciplina. Ele concluiu uma tese de doutorado multidisciplinar, intitulada “Management and Communication in the Office of the Future”, no campus de Berkeley da Universidade da Califórnia.

Flores foi profundamente influenciado pelas românticas, embora biologicamente fundamentadas, ideias de Humberto Maturana sobre percepção, cognição, linguagem e comunicação. Essas conversas foram uma inspiração fundamental para sua pesquisa, na qual ele se concentrou particularmente na filosofia existencial de Martin Heidegger4 e na Teoria dos Atos da Fala de John Searle5. Flores foi capaz de integrar as ideias de Maturana, Heidegger e Searle para produzir uma nova compreensão da linguagem e comunicação, que acabou se tornando uma disciplina para o coaching profissional.6


A BIOLOGIA DA COGNIÇÃO


A pesquisa de Humberto Maturana sobre a natureza da percepção fornece a base biológica para o Coaching Ontológico. Os achados das suas pesquisas em neurofisiologia da visão o levaram a questionar a compreensão do senso comum da percepção (apreender e representar a objetividade da realidade do mundo), o que, por sua vez, resultou numa teoria dos sistemas vivos, linguagem e cognição.7 Alguns dos conceitos fundamentais em sua teoria são: o observador, sistema nervoso, determinismo estrutural, perturbação, acoplamento estrutural, cognição, distinções, domínios consensuais, linguagem e emoção.


Um aspecto fundamental da teoria de Maturana é a noção de Observador. O que é observado depende do observador.8 De acordo com Maturana, o mundo que qualquer um de nós conhece como observador depende das interações entre os neurônios do nosso sistema nervoso. Colocando de outra forma, é a estrutura do nosso sistema nervoso que determina primeiramente, em qualquer ponto no tempo, o que é realidade para nós (individualmente e coletivamente). Maturana argumentou que a percepção deve ser estuda de dentro, e não de fora, pois o sistema nervoso gera os fenômenos que se tornam aparentes e tem existência para O Observador.


Humanos, e outros sistemas vivos, podem ser considerados como “sistemas determinados estruturalmente”, como a estrutura do nosso sistema nervoso nos informando o tempo todo como observar e responder ao mundo (que inclui não apenas o mundo físico, mas também o mundo da abstração, e, em particular, o mundo das possibilidades). Eventos e circunstâncias não especificam como um organismo responderá. Para Maturana, eventos e circunstâncias que são espacialmente separados de um organismo perturbam seu sistema nervoso. Entretanto, não são as circunstâncias externas que que primeiramente determinam a resposta do organismo. Em vez disso, é a estrutura do sistema nervoso do organismo que primeiramente determina sua resposta.


Maturana enfatiza que a noção do determinismo estrutural não quer dizer que o sistema nervoso é fixo e imutável; o sistema nervoso tem plasticidade. Sistemas vivos estão continuamente aprendendo, adaptando e mudando na medida em que novas conexões neurais são desenvolvidas, mudando a estrutura do sistema nervoso e permitindo diferentes maneiras de observar e se comportar sejam possíveis.


Uma parte vital do processo de adaptação e sobrevivência dos sistemas vivos é a interação com os seus ambientes (meios), que inclui outros sistemas vivos. Pela sua interação contínua, sistemas vivos continuamente perturbam os sistemas nervoso uns dos outros, processo que o Maturana chama de “acoplamento estrutural”. Sistemas vivos existem em influência mútua com os seus ambientes, no qual a estrutura dos seus sistemas nervosos é continuamente perturbada e alterada para mudá-los como observadores. Para Maturana, cognição é estruturada em termos de ações e interações, e cognição é integrante do processo de observar e viver. “Sistemas vivos são sistemas cognitivos, e viver, como processo é um processo de cognição”.9


A relevância dessas ideias-chave para o Coaching Ontológico é que o cliente (coachee) é limitado pela forma como ele está observando o seu mundo, e que problemas, possibilidades e soluções existem no “olho do espectador”. O papel essencial do coach é prover um contexto seguro para que o coachee aprenda novas distinções que expandam a forma como ele está observando, permitindo-o ser um observador diferente e mais poderoso (com poder sendo interpretado como capacidade de atuar efetivamente).


A visão de Maturana sobre linguagem é baseada na noção de “domínios consensuais”, na qual observadores compartilham distinções sobre observar o mundo, e essas são distinções que ocorrem na linguagem. Como um domínio consensual da atividade humana, a linguagem permite que características do mundo sejam distinguidas, e servem para o desenvolvimento de uma compreensão compartilhada. Essa é a base essencial para o desenvolvimento da cooperação, da colaboração e da coordenação, que sãos essenciais em relações pessoais e profissionais construtivas.


Além da linguagem ser uma característica vital da estrutura do sistema nervoso humano, moldando como as pessoas observam o mundo da fatalidade e da possibilidade, Maturana também enfatiza o papel das emoções e da fisiologia. Ele cunhou as expressões “linguajear” e “emocionar” para indicar que linguagem e emoções são processos do vivo, que são características integrantes da percepção e cognição.10 Ele caracterizou emoções e disposições corporais dinâmicas como comportamento relacional.


A visão de Maturana sobre linguagem, emoções e fisiologia provê a base para o modelo essencial e metodológico do Coaching Ontológico. A estrutura do sistema nervoso humano é considerada como uma interação dinâmica entre três esferas interrelacionadas da existência humana – linguagem, emoções e corpo. No Coaching Ontológico a interrelação indissociável entre esses três domínios ontológicos é considerada como a forma de ser, moldando como o mundo é observado. Cada domínio é uma área de aprendizagem e mudança, com mudanças em todas as três áreas sendo necessárias para que ocorram mudanças duradouras.


A aplicação da trilogia linguagem, emoções e corpo no coaching é que o coach seja um observador apurado de como (i) o coachee usa a linguagem, (ii) a experiência emocional do coachee, e (iii) como a forma particular de linguajear e emocionar está configurada no corpo do coachee. O papel do coach é perguntar respeitosamente ao coachee sobre como mudanças podem ocorrer em cada domínio da linguagem, da emoção e do corpo, para gerar novas perspectivas construtivas que abram novas possibilidades para ação efetiva pelo coachee. (Veja o exemplo abaixo, “Coaching Ontológico em ação”.)


FILOSOFIA E O GIRO LINGUÍSTICO


Existe uma sobreposição memorável entre a teoria de base biológica do Maturana, e um grande desenvolvimento que ocorreu na filosofia durante o Século XX. Esse desenvolvimento foi caracterizado como “o giro linguístico”, sua essência é que a linguagem humana faz muito mais que descrever o mundo. Linguagem pode ser vista como um processo ativo que gera o que constitui a realidade para humanos, e quando mudanças ocorrem no uso da linguagem, um mundo diferente fica disponível para o observador. É interessante notar que a emergência da perspectiva que a linguagem tem um papel ativo na construção da realidade não ficou limitada à filosofia. É também evidente no trabalho do psicólogo social George Herbet Mead11, em alguns antropologistas12, no trabalho de Alfred Korzybski sobre Semântica Geral13, na Terapia Comportamental Emotiva Racional de Albert Ellis14, bem como em estudantes de sociologia do conhecimento15.


Diferentes ramos da filosofia contribuíram para esse novo entendimento da linguagem. Da Fenomenologia e da Hermenêutica veio a ideia de que pensar, entender e atuar são atos de interpretação, colocando a interpretação como coração da cognição. Participar e interagir com o mundo é continuamente um processo de interpretação, ocorrendo em um contexto cultural e histórico, que é essencialmente um processo de geração de sentido. Como o filósofo Ken Wilber comentou, “Humanos parecem condenados ao sentido, condenados a encontrar importância, profundidade, cuidado, preocupação, valor, significado para sua existência cotidiana.”16 Tudo isso ocorre na linguagem. Resumidamente, interpretação é fundamental para a existência humana, e isso é fundamentalmente linguístico, assim como ser emocional e fisiológico.


Um dos papéis essenciais de um coach ontológico é apoiar o desenvolvimento de mudanças construtivas nas interpretações do coachee, pois as interpretações existentes têm gerado um sentido sobre o mundo que é restritivo e atua como uma prisão, limitando suas possibilidades e potencialidades.


Martin Heidegger foi uma grande contribuição para o giro linguístico. Ele empreendeu uma grande investigação sobre a questão do ser.17 Escrevendo em Alemão, ele usou a expressão “Dasein”, o que significa “Sendo-aí no mundo”. Para Heidegger, a compreensão e a existência humana era uma existência prática vivida. A compreensão surgiu de como as pessoas se engajam na vida, o que inclui especialmente as práticas sociais e de conversações de suas comunidades. Viver é uma experiência interpretativa, com hábitos, costumes, crenças e rituais que formam as características integrantes da nossa existência cotidiana individual e coletiva, informando-nos como nos relacionar e participar do mundo. Inescapavelmente, isso envolve a linguagem. Heidegger caracterizou a linguagem como “a casa do ser” e afirmou que para humanos não há saída da linguagem. Quem nós somos e quem nos tornamos, individualmente e coletivamente, é constituído na linguagem.


Outras contribuições significantes no giro linguístico surgiu de Ludwig Wittgenstein, John Austin e John Searle.18 As ideias essenciais que surgiram são:

(i) a linguagem é uma forma de ação humana;

(ii) a linguagem é um instrumento para fazer coisas;

(iii) a linguagem produz efeitos nos participantes (interlocutores) e, portanto, impacta no que é a realidade para eles;

(iv) existe um número de maneiras fundamentais que humanos continuamente usam linguagem para produzir efeitos e gerar realidades, que são chamados de Atos da Fala.


A ideia de que a linguagem gera realidades é central para o Coaching Ontológico. A noção de Atos da Fala foi desenvolvida em um modelo de Atos Linguísticos Básicos, e é um importante aspecto da metodologia do Coaching Ontológico.19 O coach escuta ambas as maneiras específicas do coachee usar ou não usar a linguagem, e como essas maneiras podem estar limitando a forma como ele ou ela está observando suas circunstâncias. A mudança na linguagem, especialmente o uso dos Atos Linguísticos Básicos, pode ser a base para o desenvolvimento de um comportamento e comunicação mais eficazes e a resolução de questões problemáticas.


PERSPECTIVAS FILOSÓFICAS NAS EMOÇÕES


O filósofo Robert Solomon comentou que emoções são “inteligentes, cultivadas, compromissos com o mundo conceitualmente ricos, não meras reações ou instintos. ... [E]moções são o sentido da vida. É porque nos emocionamos, porque sentimos que a vida tem sentido.”20 Martin Heidegger enfatizou a importância dos estados de ânimo na nossa existência interpretativa. “A base de qualquer interpretação é um ato de compreensão, que é sempre acompanhada por um estado espírito, ou, em outras palavras, que tem um estado de ânimo.”21


Estados de ânimo podem ser profundos, invisíveis e duradouros estados emocionais que têm um grande impacto em como o mundo é observado e vivido. Para Heidegger estados de ânimo são um “tipo primordial de ser”, e considera os estados de ânimo como uma forma de nos sintonizar com o mundo.22 Ele sintetiza a noção de estados de ânimo como predisposições para ação, quando ele diz que eles são “criadores de possibilidades para direcionar-se em direção a algo.”23 Nossos estados de ânimo são uma expressão das nossas predisposições e orientações fundamentais na vida. O estado de ânimo comunica ou revela um mundo particular, e isso inclui especialmente quais ações e formas de relacionar com o mundo são ou não são possíveis.


Baseado na filosofia de Heidegger e Nietszche,24 um modelo chamado Alguns Estados de Ânimo Básico da Vida foi desenvolvido para o Coaching Ontológico. Trabalhar com estados de ânimo pode ser essencial para gerar mudanças fundamentais na forma habitual do coachee de se comportar e observar, e na geração de mudança positiva duradoura. O modelo provê o coach com distinções-chave para explorar respeitosamente, compreender e mudar como o coachee é limitado por alguns aspectos da sua existência emocional. Isso inclui a importância crucial de sutis, porém profundas, mudanças na postura estática e dinâmica do coachee.


Perspectivas filosóficas nas emoções tem sido reforçadas pelo recente surgimento da “Inteligência Emocional”, um conceito desenvolvido na psciologia25 e popularizada por Daniel Goleman.26 Dentro da neurociência houve um aumento de pesquisas focadas no impacto das emoções na percepção e no comportamento, e o desenvolvimento de uma área especializada chamada “Affective Brain Science”.27 Até sua morte em 2001, o biólogo Francisco Varela, coautor com Maturana, foi ativo nessa área de pesquisa científica.28


DESENVOLVIMENTOS RELACIONADOS NA PSICOTERAPIA


Apesar do Coaching Ontológico não ser psicoterapia, vale a pena notar que desenvolvimentos similares na utilização do novo entendimento da linguagem aconteceu na psicoterapia. No The Interpreted World, Ernesto Spinelli baseia-se na fenomenologia e na filosofia existencial para apresentar um esboço da psicologia fenomenológica e psicoterapia fenomenológica.29 Michael White, o desenvolvedor da Terapia Narrativa, tem sido proeminente em reconhecer explicitamente o papel da linguagem no mundo do cliente.30


A biologia da cognição tem sido utilizada como estrutura para Terapia Familiar, com artigos aparecendo no The Networker31, The Irish Journal of Psycholoy32 e no Journal of Marital e Family Therapy33.


COACHING ONTOLÓGICO EM AÇÃO


Tendo descrito a essência da Ontologia como a base teórica para o coaching profissional, agora é apropriado passarmos à consideração da aplicação da teoria e da metodologia do Coaching Ontológico. O que segue é um esboço de uma conversa real de coaching em um contexto organizacional que demonstra a aplicação da metodologia do Coaching Ontológico.


George era o gerente de uma unidade de negócio em uma importante companhia internacional de manufatura. Ele tinha um histórico fora de série como engenheiro e ganhou promoções rapidamente para sua posição atual e tem fortes aspirações de chegar à posição de executivo na companhia. No entanto, infelizmente, suas relações com muitas pessoas na sua unidade tem deteriorado gradualmente. Com frequência George se encontra mal-humorado e irritado, e apesar de ele não querer ser desta forma, isso claramente estava interferindo na sua efetividade no seu papel. Ele gostava do constante desafio do seu trabalho, mas infelizmente isso virou uma grande fonte de sofrimento, com a perda da alegria e estímulo que ele experimentou alguma vez. Sua vida familiar também estava em sofrimento, já que ele carregava para casa seu estado de ânimo negativo.


As avaliações de desempenho de George destacavam constantemente a necessidade de melhora na sua comunicação com os outros. Nas primeiras conversas de coaching ficou claro que George estava experimentando uma grande dificuldade com delegação. Mais especificamente, ele estava experenciado uma falha de comunicação em fazer pedidos claros e efetivos (um elemento-chave do modelo dos Atos Linguístico Básicos). Fazer pedidos efetivos está no coração do funcionamento de qualquer trabalho, pois as pessoas constantemente fazem e gerenciam compromissos entre si por meio dos pedidos, permitindo que coordenem suas diferentes atividades de trabalho e atinjam objetivos.


George reportou que frequentemente sentia raiva das pessoas da sua unidade, e que costumava ser limitado e retraído na expressão da sua raiva. Quando perguntado sobre o que era a raiva ele respondia que ficava bravo quando ele sentia que tinha que pedir às pessoas para fazer as coisas, porque eles deveriam saber o que fazer e que era um insulto para ele que tivessem que perguntar. Uma exploração posterior revelou que esse era um padrão de comportamento que ele aprendeu na infância. Da sua experiencia familiar, George aprendeu que você ofende as pessoas se você não sabe o que fazer para elas, e que você não deveria ser questionado. Resumindo, se você se importasse estaria alerta, antecipando o que elas querem e fazendo o que queriam. Além disso, uma mensagem muito forte e não declarada que ele também aprendeu foi que, se você não fizesse isso, seu valor fundamental (como ser humano) seria questionável.


George tinha uma história muito poderosa e crenças associadas em uma área de relacionamento com pessoas. Sua história carregava uma expectativa de que ele não somente tinha que estar alerta ao que os outros queriam que fosse feito sem ter que perguntarem para ele, como também carregava um pressuposto inquestionável que os outros deviam ser tão sensitivos com ele, especialmente porque ele estava agora em uma posição sênior. Podemos ficar tentados a dizer que tudo o que ele precisava fazer era mudar a história e ele poderia mudar seu comportamento. No entanto, sua história também tinha uma forte aderência emocional nele.


Desnecessário dizer que havia um pouco de tensão associada à história dele. Muita energia emocional foi necessária para manter o alerta às necessidades dos outros, e não ter que lidar com a questão da autovalorização, bem como lidar com a insensibilidade dos outros quando eles não percebiam espontaneamente o que precisava ser feito. A consequência emocional foi que, na maior parte do tempo, George vivia se ressentido (um dos principais elementos do modelo Some Basic Moods of Life). Em outras palavras, a raiva estava quase permanentemente em segundo plano, facilmente desencadeada quando ele sentia que precisava perguntar a outras pessoas. Sua história e seu humor também foram incorporados; ou seja, configurou sua postura de modo que (i) achava difícil perguntar às pessoas e (ii) quando o fazia, seus pedidos eram “cortantes” e não conduziam ao desenvolvimento de relacionamentos positivos no local de trabalho.


Foi importante prover George com algumas importantes distinções sobre o papel crucial dos pedidos no trabalho, incluindo elementos-chave que são essenciais para fazer pedidos efetivos. Isso deu a ele algumas maneiras importantes de usar a linguagem para melhorar suas competências de delegação, e agora ele tem a estratégia para fazer pedidos efetivos. Entretanto, no método do Coaching Ontológico, o foco não é de prover pessoas com estratégias per se, e trabalhar somente no domínio da linguagem é insuficiente para facilitar mudanças duradouras.


Foi importante estar atento ao que estava acontecendo com George nos domínios das emoções e do corpo. Além do seu estado de ânimo de ressentimento, o coach também avaliou que George estava sustentando medo no seu corpo, que pode ser pensado como um estado de ânimo de ansiedade (outro Estado de Ânimo da Vida). O medo frequentemente “mora dentro” da área do peito, como uma expressão de retirada para se proteger. Parece que George também tinha experimentado um medo constante de base na sua infância. Se ele não estava alerta às necessidades dos outros e o que ele precisava fazer para eles, então ele seria castigado ou punido. Especialmente para crianças, isso significa não ser aceito, ou mesmo ostracizado, uma coisa nunca prazerosa de lidar, e certamente a ser temido. O estado de ânimo de ressentimento e a ansiedade de George ficaram incorporados, e de forma sutil, ainda que impactante, esses estados de ânimos permeavam quem ele era no ambiente de trabalho.


A incorporação de estados de ânimo é uma potente influência em como as situações são observadas, e o comportamento que é possível para melhorar as circunstâncias. Estados de ânimo podem ser considerados como predisposições para ação: o estado de ânimo particular em que estamos vai nos predispor a nos comportar em uma certa maneira e não de outras. Os estados de ânimo de George não estavam o predispondo para se comprometer a delegar com sucesso através de pedidos efetivos.


Uma das áreas mais profundas de alavancagem no coaching, sempre com a permissão da pessoa que está sendo coacheada, é trabalhar com a sua postura. Mesmo quando George mudou a suas palavras, sua configuração corporal fundamental não se alterou, e sua história e estados de ânimo negativos permaneceram. Ao fazer seu pedido (foi-lhe pedido que falasse as palavras que lembrava ter usado em um incidente recente) foi observado que ele curvou ligeiramente os ombros, curvou-se para frente e para baixo, e que seu peito estava concavo.


Com a permissão de George, o coach ficou em pés atras dele e levemente segurou seus ombros enquanto George repetia seu pedido. Mesmo assim, o coach notou que George continuou sutilmente com o peito concavo. O coach compartilhou sua observação com George, que imediatamente ficou consciente do que ele estava fazendo e ficou espantado.


Em uma conversa de acompanhamento George reportou “me sentindo muito mais leve, mais à vontade comigo mesmo, e mais aberto nas minhas relações com as pessoas”. Ele também reportou que “as coisas estão muito melhores em casa”. Além disso, seu desempenho melhorou, refletindo em uma avaliação de desempenho mais positiva. Ele foi capaz de experimentar a si mesmo de forma diferente em uma área-chave do seu trabalho, que também produziu experiências diferentes no relacionamento com os colegas de trabalho e sua família. Trabalho e casa assumiram um significado mais positivo para ele.34


CONCLUSÃO


Em um momento em que o coaching é mais caracterizado como uma indústria do que uma profissão, marcos teóricos substantivos são necessários para permitir que o coaching se mova em direção a se transformar em uma profissão confiável e, portanto, tenha o mesmo crédito e reconhecimento da comunidade como outras profissões. Ontologia provê uma rigorosa base teórica para uma metodologia de coaching e uma prática de coaching aceitável. Ao compreender precisamente como clientes de coaching usam linguagem, emoções e fisiologia para estruturar sua realidade, um Coach Ontológico pode intervir respeitosamente para apoiar seus clientes a se tornarem diferentes observadores e desenvolver uma realidade mais construtiva e menos limitante. Mudanças na linguagem, emoções e fisiologia permitem a formação de novas perspectivas, que podem automaticamente abrir novos caminhos para ação efetiva e a realização de resultados desejados que não estavam previamente disponíveis.



Notas

1 Lou Marinoff, Philosophic Pratice.

2 The Oxford Companion to Philosophy, editado por Ted Hondericj, 634.

3 Perry Zeus and Suzane Skiffington, Coaching at Work.

4 Martin Heidegger, Being and Time.

5 John Searle, Speech Acts e Meaning and Expression.

6 Muitas das ideias de Flores pode ser encontrar em: Terry Winograd e Fernando Flores, Understading Computers and Cognition e Charles Spinoza, Fernando Flores e Hubert Dreyfus, Disclosing New Worlds.

7 Humberto Maturana e Francisco Varela, The Tree of Knowledge: The Biological Roots of Human Undestanding e Autopoieses and Cognition.

8 É interessante notar que isso também foi um grande descobrimento no campo da física quântica. Veja, por exemplo, Robert Nadeau e Menos Kafatos, The Non-Local Universe: The New Physics and Matters of the Mind.

9 Humberto Maturana e Francisco Varela, Autipoises and Cognition. 8.

10 Humberto Maturana, Reality: The Search for objetivity or the quest for a compelling argument. Irish Journal os Psychology, 9:1 25-82.

111 George Herbert Mead, Mind, Self and Society.

12 Edward Sapir, Lenguage e Benjamin Lee Whorf, Lenguage, Thought and Reality.

13 Alfred Korrzybski, Science and Sanity: An Introduciton to Non-Aristotelian Systems and General Semantics.

15 Peter Berger e Thomas Luckman, The Social Construction of Reality.

16 Ken Wilber, Marriege of Sense and Soul.ix.

17 Martin Heidegger, op cit.

18 Ludwing Wittgenstein, The Blue and Brown Books e Philosophical Investigations; John Austin, How To Do Things with Words; John Searle, op cit.

19 Para detalhes dos Atos Linguísticos Básicos e sua aplicação no Coaching Ontológico veja Alan Sieler, Coaching to the Human Soul: Ontological Coaching and Deep Change.

20 Robert Solomon, The Passions. ix.

21 Maritn Heidegger, Being and Time. 296.

22 ibid 172

23 op. cit. 173.

24 Friederich Nietzsche, Thus Spoke Zarathustra.

25 P. Salovey e J. D. Mayer Emotional Intelligence, Imagination, Cognition and Personality, 9, 185-211.

26 Daniel Goleman, Emotional Inteligence, Working With Emotional Intelligence, The New Leadres e Destructive Emotions.

27 Veja Daniel Goleman, Destructive Emotions.

28 Em Destructive Emotions Goleman comenta que a teoria de Maturana era considerada herética nos anos 70, mas “agora influencia pensadores em campos desde filosofia da mente e ciência cognitiva até teoria da complexidade” (307). Francisco Varela, Naturalizing Phenomenology: Contemporary Issues um Phenomenology and Cognitive Science; The View From Within: First-Person Methods in the Study of Consciousness; Periot, Jean, Varela, Francisco J., Pachoud, Bernard e Roy, Jean-Michel. Eds. Naturalizing Phenomenology: Contemporany Issues in Phenomenology and Cognitice Science; Depraz, N., Varela, F. J. e Vermesch. On Becoming Aware: The Pragmatics of Experiencing.

29 Ernesto Spineli. The Intrepretaive World.

30 Michel White. Narrative Therapy.

31 Richard Simon. A frog´s eye view of the world. The Networker. Maio-Junho 1985, 32-34.

32 Humberto Maturana. Reality: The Search for objectivity or the quest for a compelling argument. op. cit.

33 Paul F. Dell. Undestanding Bateson and Maturana: Toward a Biological Foundation for the Social Sciences. Journal of Marital and Family Therapy. 1985, 11:1 1-20.

34 Veja Alan Sieler, Coaching to the Human Soul: Ontological Coaching and Deep Change para mais 25 exemplos do Coaching Ontológico em ação.



Referências

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Dell, Paul F. (1985). Understanding Bateson and Maturana: toward a biological foundation for the social sciences. Journal of Marital Family Therapy. 11:1 1-20.

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Honderich, Ted. ed. (1995). The Oxford Companion to Philosophy. Oxford: Oxford University Press.

Korrzybski, Alfred (1994). Science and Sanity: An Introduction to Non-aristotelian Systems and General Semantics. Brooklyn, New York: International Non-aristotelian Library Publishing Company (Fifth Edition).

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